a nadadora

Você sobe no ônibus pela porta da frente e fica parada, de costas para o motorista e de frente para o primeiro assento individual da condução. Você tá velha, mas bem vestida, blusinha carmim, colarzinho dourado, pantalona estampada preta e branca, cabelo meio ressecados no tom loiro. Você encara a senhora que está sentada no banco:

A senhora não te dá a mínima; sequer olha para você.

 – Poderia se levantar? Preciso sentar aí. Carrego muitas sacolas e preciso me sentar neste lugar.

Ela nem se abala. Os outros passageiros ficam sob atenção. Um senhor se vira e mostra assentos livres, sugerindo que você ocupe um destes. Gritando, você responde:

– EU PRECISO SENTAR NESSE LUGAR AQUI. CARREGO SACOLAS.

 E para a senhora do banco: – Levante já daí!

Um pouco mais atrás, duas mulheres comentam que as suas sacolas são “de grife”, com uma  risadinha classista.

O seu tom agora está bem exaltado:

 – NÃO POSSO ME SENTAR EM OUTRO LUGAR. TENHO SACOLAS, CARREGO PESO, PRECISO ME SENTAR AQUI (você aponta o lugar ).

Tensão no ar, mas a senhora não esboça nenhuma reação.

Você grita mais alto, já em desespero.

– EU SOU LIMPINHA E MUITO MAGRINHA. CARREGO SACOLAS, PRECISO ME SENTAR AQUI.

Você se vira para o fundo do ônibus:

– EU ENJOO SE SENTO EM OUTRO BANCO. EU SÓ POSSO SENTAR AQUI.

Sua voz é de quem quer jogar aquela mulher pela janela:

– VAI LEVANTAR PRA EU ME SENTAR?

Nada…

– Eu sou limpinha, não sou suja como ela.

– Eu sou magrinha, carrego sacolas, não sou como vocês todos, sujos, imundos.

Alguém comenta baixinho que você vai acabar presa.

Chega o ponto da senhora do banco da frente.

É o mesmo que o seu.