
Olyveira Daemon
Eu confesso: o sabor da água que bebo logo ao me levantar, antes do café da manhã, é um mistério pra mim. A temperatura das oito horas e a textura da luz do sol também. Sabores, temperaturas, texturas, de onde vêm, aonde vão? Não sou um aloprado ou um místico, nem fumei um baseado, apenas sinto que o mistério atravessa tudo: sonhos, água, árvores, prédios, pessoas… Principalmente pessoas.
Ela − ou seria ele? − frequenta o mesmo self-service que eu há pelo menos dois anos. Mas pouquíssimas vezes nos esbarramos na longa fila do bufê ou do caixa. Quando isso acontece, emitimos uma saudação tímida, quase sem olhar nos olhos, e seguimos em frente, cada um pra sua mesa. Ele − ou seria ela? − gosta de sentar perto da janela. Eu prefiro o canto mais distante do burburinho.
Eu confesso: às vezes tomo notas, às vezes desenho rostos e silhuetas em movimento. Atento à viagem da ponta da caneta, quase sempre me distraio, admirando menos o desenho e mais a tinta que vai manchando as fibras do papel. Então, tiro os óculos e me aproximo. O que era liso fica rugoso, outro mundo vai surgindo.
Já me disseram que eu sou um inventor de pessoas, porque passo a maior parte do tempo observando discretamente os estranhos. E fantasiando. No restaurante, no banco ou no metrô, ninguém escapa. Eu crio uma biografia cheia de segredos pra qualquer homem, mulher ou criança que chame minha atenção. Pra mim todos têm dupla ou tripla identidade, só não sabem disso ainda.
Eu confesso: é por essa razão que fico analisando de longe essa garota − ou seria esse garoto? −, sempre que venho ao self-service. Observando a roupa, o corte de cabelo, não consigo me decidir se é ele ou ela, ou uma mistura dos dois, ou a ausência de gênero. Adoro quando o mistério se manifesta nesses detalhes tão triviais.
Ontem ele ou ela foi flagrado me observando. De longe. Eu mesmo flagrei seu olhar. Dessa vez nossos olhos se encontraram por mais tempo. Fiquei encabulado, desviei o olhar, deixei pra lá o restinho de goiabada e entrei na fila do caixa. Antes de sair do restaurante, o mistério cresceu tanto que virou um milagre. Notei que ela ou ele tomava nota num moleskine. Ou desenhava.
Eu confesso: a simples possibilidade de também estar sendo inventado por outra pessoa me enche de alegria.