Marivia Sampaio

Recebi uma mensagem dizendo que Honorato estava morto. Foi um choque.  Minha cabeça começou a girar como um pião que solta da fieira. Muitas imagens numa fração de segundo.  Lembranças. Honorato, não  mais na roda de conversa,  na cervejinha da sexta-feira,  no futebol.  Honorato se foi. Velório às 14h, sepultamento às 17h. Consegui uma passagem,  por sorte, e fui para São Paulo. Foi a viagem de 2h mais longa da minha vida. Finalmente,  cheguei.  Meu amigo ali, inerte. Cumprimentei os amigos e familiares e fui me despedir de Honorato.  Detalhe: ali,  eu só  conhecia o meu amigo. Quando estava perto do caixão,  fechei os olhos,  fiz uma prece e olhei para Honorato.  E agora? Aquela pessoa podia ser qualquer um, menos Honorato.  O defunto estava vestido com uma camisa do timão.  Jamais seria ele. Honorato era verde, tinha sangue verde, era Palestra até  morrer. Na hora, pensei, será que  levaram isso tão ao pé  da letra e seguiram  a vontade dele? Os que se aproximavam diziam coisas sobre seu time e estranhavam a camisa do timão.  Até que chegou uma senhora, meia idade, olhos inchados, lencinho nas mãos,  já  bem perto de Honorato,  soltou , como ele ficou lindo com a camisa do timão. Ah, aquilo não prestou, Honorato levantou, atirou as flores naquela senhora e gritou, sou Palestra até  morrer.