A Nadadora

Vou embalada pelo canto dos passarinhos enquanto escrevo. Sou como eles que nada pede em troca. Gostaria de relacionar o canto e a escrita, inventar lindas metáforas, mas não posso. É que outro som não sai da minha cabeça. Do meu corpo. A cena dura já uma semana.

Um átimo de tempo registra o voo de dois serezinhos que piam assustados, inutilmente. Eu gosto de olhar pela janela tingida de cor de rosa das flores do ipê. Eu gosto da árvore que abriga sabiás, bem te vis e beija flores. Mas o gavião tem outros objetivos e atravessa meu pedaço de céu com o pequenino pássaro sem penas e biquinho aberto em suas garras.

O som e o susto.  Desespero de toda família. Desamparo de todos nós.  Vivemos pendurados, no ar, daquele jeito. O abstrato se apodera de mim.

De nada adianta a salvação porque o predador quer carne tenra. O predador quer ovos da passarinha. A decisão já foi tomada.

Você sabe como são feitos os ninhos dos pássaros? Sabedoria fantástica, precisa observar pela janela. Mas a dor não vai embora, não me recupero. A humanidade deste corpo deixou de ter razão de existir.