Convidada para um evento turco, “Noite de Henna”, uma cerimônia tradicional turca, que apresenta a passagem da noiva como menina tornando-se mulher pelo casamento.

Fui com uma amiga à Casa Museu Ema Klabin num sábado  à noite.  No pátio atrás da casa, havia algumas fileiras de cadeiras já ocupadas por mulheres de idades diversas. Esse evento é basicamente feminino.

Soubemos que haveria um sorteio, que não sabíamos para o que era.  Só que era uma surpresa. Assinamos uma lista e eu brinquei ”Nunca fui sorteada para nada!” Será que seria desta vez? Só falta ser eu! “

Adivinhem! E não deu outra: Renata Oliva na roleta. Fui eu a sortuda! Sortuda? Até que foi. Era para eu ser a noiva da “Noite de Henna”, isso mesmo, eu faria o papel da jovem noiva. Euzinha. Aceitei a tarefa, alegre e curiosa, para saber no que ia dar. Atravessei o salão altiva, mas ligeiramente envergonhada como se espera de uma noiva às vésperas do casamento. As mulheres presentes acenavam para mim desejando felicidade enquanto se serviam num bufê de pratos típicos variados e cuidadosamente enfeitados.

Um grupo de moças turcas vestidas com saias compridas, as casadas com lenços na cabeça, os “hijabs”, me levaram para uma sala espaçosa. Tudo levado muito a sério e eu me divertindo com essa situação completamente inusitada. Eu, nos altos dos 71 anos, era a mocinha florescendo! Só faltava essa. Fui vestida com um vestido de veludo verde-escuro bordado, representando Fertilidade, Renovação, Harmonia e Proteção espiritual. O véu era vermelho, também lindamente bordado, representando Amor, Felicidade e Fortuna. Treinamos, algumas vezes duas coreografias de danças típicas para a apresentação. Eu, desajeitadíssima girando, girando, movimentando as mãos, segurando a barra do vestido e o véu para não atrapalhar a performance. Estava um calorão e o vestido era bem pesado por causa da pedraria. Ainda bem que eu estou bem condicionada, graças ao treino diário de musculação. Fiquei escondida nessa sala, já que ninguém pode ver a noiva antes da apresentação, apreciando a comida turca: kibe, esfiha parecida com pizza, bolinho de lentilha vermelha, um tipo salpicão e arroz com tirinhas de carne. Tudo muito gostoso, mas não teve aqueles doces maravilhosos. Fiquei um pouco decepcionada com esse pequeno detalhe. As moças também jantaram comigo, conversando sem parar. Comigo foram muito reservadas. Respondiam laconicamente às minhas perguntas. Pena, afinal eu estava curiosíssima para saber da vida delas. Elas não abriram.

Chegou a hora da apresentação.

Fui cercada pelas moças e entramos em cortejo até o meio do salão e começamos a dançar e, para falar a verdade, até que eu não fiz feio! Também, depois da aula… Acabadas as danças, todas as mulheres foram dançar ondulando os quadris, movimentando os braços e as mãos, no ritmo turco. Esses movimentos foram influenciados pelas danças árabe, bizantina e persa. Tudo muito elegante e refinado, como nos filmes. E eu, no meio disso tudo, pode?

Fiquei sentada num tamborete observando a turma dançando, até me levarem para fora do salão. Colocaram um outro lenço vermelho cobrindo meu rosto e as pessoas que estavam dançando formaram um túnel, dando-se as mãos em duplas, como túnel de quadrilha de festa junina. Seguravam velinhas de bateria e eu passei por baixo. À minha frente ia uma moça com uma bandeja iluminada com uma pasta de henna no centro. Chegamos ao fim e ela me conduziu outra vez para o tamborete. Aí tive que interpretar um choro bem sentido, para demonstrar a profunda tristeza de deixar a casa dos pais. Depois de chorar bastante, a dança parou.

Nessa hora, acontece uma cena divertida: a sogra pede três vezes para a futura nora abrir as mãos, que estão fechadas.  Ela pede algumas vezes, sendo os pedidos sempre negados até ouro ou dinheiro ser oferecido à noiva, que aceita uma moeda e abre as mãos!

 Aí vem a parte mais importante da festa, que dá o nome ao evento: a pasta de henna é colocada nas palmas das mãos, com um lenço e as mãos são fechadas outra vez e luvas de tule vermelho são calçadas, para a tinta da henna pegar bem. A mancha de henna é um símbolo tradicional de sorte, proteção e felicidade.

A festa estava chegando ao fim ainda com muita música e dança. As pessoas começaram a sair cansadas, mas muito felizes!

Agora só falta eu casar!