
Por Adriana Joubert
Ela não costumava olhar-se no espelho ao acordar. Quando jovem, nem dava tempo. Sempre atrasada. Com a idade, brincava que primeiro era preciso lembrar-se de quem é: “Isadora, a bailarina!”
Disse à Angélica, sua amiga e assistente de camarim desde o início de carreira: “quando revisito fatos passados sinto que estou em câmera lenta, os cenários esfumaçados. Sinto-me traída. Assim é envelhecer?”
“Isadora, quando os anos se somam, juntando todos, misturam-se os fatos, como em um álbum de retratos que não atende à cronologia, mas coleciona momentos. As lembranças vêm e vão à medida das saudades. Você está ficando nostálgica, só isso. Mês que vem as portas da casa serão abertas para os meninos, familiares, amigos, taças em brinde aos seus oitenta anos.”
“Navarro, você é meu médico há tanto tempo e me conhece tão bem. Ando um pouco estranha. Meio esquecida, vazia, oca. A minha memória não é mais a mesma.”
“Isadora, talvez, emoções represadas. A ausência do palco, o distanciamento da escola ao decidir passar a administração aos seus filhos, a viuvez.”
“As memórias, grandes ou pequenas, vêm em vão, em fragmentos, Navarro. São partes de mim, fios que desfazem o novelo de uma carreira de sucesso, retratos em branco e preto da minha infância, dos meus pais, do meu casamento, dos meninos. Outro dia eu comecei a ensaiar uns passos de uma peça favorita e, de repente, não me recordei mais quais eram os seguintes. A contagem do ballet ocorre em oito tempos que se repetem metodicamente na busca pela leveza, graça e perfeição. Não passei do quarto, apesar do esforço. Criei um ritual de repetição seguindo o método, repassando a minha vida como se fosse uma série. Os episódios têm ficado mais curtos a cada temporada.”
“Entendo. Deve ser estresse, mas vou encaminhá-la a um neurologista da minha confiança, vamos investigar.”
Ao chegar em casa, sem abrir o envelope com os resultados dos exames, foi direto à sala de ballet, santuário onde cabia a sua vida, encontrar-se com Julieta, Bela adormecida, Copélia, Giselle, Odette e tantas outras. Passou os dedos pelo quadro das sapatilhas de estimação, pelos presentes que marcaram tantas épocas. Admirou a barra onde desenvolveu a força, velocidade, equilíbrio, flexibilidade e coordenação que o ballet exige. Desfilou diante da galeria de fotos que exibiam lugares onde dançou, jantares e festas que reuniam a elite cultural da época. Deitou-se em sua “chaise longue”. Fechou os olhos. Ouviu o esplendor das palmas que lhe devolviam ao palco tantas vezes, o roçar da cortina subindo e descendo ao chão. Sentiu o aroma das flores de admiradores que cobriam as mesas, as poltronas e todo o camarim. Reviveu o calor, a receptividade, o êxtase do público em reconhecimento ao seu amor à dança.
Como serão os meus dias a partir de agora? Até quando me lembrarei? Como caminharão meus passos? Sem rastros? E a minha história? Uma bailarina sem arte, sem alma? Quem viu, jamais esquecerá. Para mim, tudo ficará para trás, refletiu Isadora.
Num impulso, ergueu-se, tirou as pantufas e simulou uma ponta tímida, mas decidida, sobre o linóleo.
Angélica abriu a porta, encantou-se com o que viu. Lânguida, corpo esguio e ereto. Sempre majestade, pensou ela.
“Isadora, estão todos aí. O buffet dará início ao serviço.”
“Será a derradeira vez, Angélica?”
“Como? Não estou entendendo.”
O maître bateu à porta e anunciou que os convidados aguardavam a anfitriã.
Isadora ficou impassível.
Silêncio.
Segundos depois, ela passou os dedos pelos cabelos, alinhou o corpo, elevou a cabeça e exclamou: “Vamos, o espetáculo já vai começar.”
Adriana Turri Joubert
Menção honrosa Prêmio Nacional de Literatura, Sind Clubes 2023