
Por Marília Abreu
Intuitivamente, usamos a expressão “desalmado” para descrever alguém ruim, a quem os psicólogos chamariam de psicopata. Do ponto de vista religioso, considero que “desalmado” é mais preciso.
A psicologia, que seria a ciência que estuda a alma, tem na percepção de Carl Jung um conceito relevante. Ele descreve um personagem interior da psique masculina a quem denominou anima (alma), a personificação do feminino interior que busca sentido, e o animus, a figura masculina interior que impulsiona para o mundo, para a coragem e a ação.
Hoje, entendo que as mulheres fizeram sua lição de casa: foram para o mundo. Os homens, em grande medida, não foram para a alma.
Na perspectiva espiritual, a alma é o que nos conecta com o espírito, com o aspecto divino. Sem essa conexão, ficamos apenas reagindo às circunstâncias, com a perspectiva limitada de nossos próprios interesses e necessidades imediatas. Reagimos por instinto e não por alma.
Ignorar o passado coletivo e a conexão entre causas e efeitos num âmbito maior afeta a forma como acionamos nossos instintos primitivos de sobrevivência como motivador principal, usando a racionalidade apenas para encontrar a saída mais vantajosa, desconsiderando o impacto mais amplo dessas decisões.
Essa perspectiva, prevalente no masculino (ou no arquétipo do animus desequilibrado), tem dominado a civilização humana até aqui: a lei do mais forte, sendo a base do patriarcado, do capitalismo predatório e de um viés religioso dominante. O resultado foi a expansão dessa visão pelo mundo, com domínio, conquista e extermínio de povos, como uma cultura que, para existir e prevalecer, precisa subjugar e destruir o que seja considerado primitivo (ou primordial), incluindo a Natureza.
Um dia, esse modo de pensar iria colapsar. E parece que esse dia chegou.
O excesso de energia yang, com essa forma brutal de se relacionar com o mundo, afasta cada vez mais o homem de sua alma, de seu propósito divino. O individualismo isola, as conquistas materiais perdem o sentido, e medicamentos, bebidas, drogas e pornografia tornam-se lenitivos para seres que perderam sua conexão com a própria alma, que andam sem rumo, sem propósito, continuando a fazer o que sempre fizeram sem entender o porquê.
A alma lida com os sentidos (no sentido de significado e sensibilidade), e as experiências não sentidas, não integradas, não fazem sentido. Por isso, perde-se também o bom senso, o senso de justiça, de equidade, de proporção. Perdem-se, enfim, todos os “sensos”.
O que vivemos hoje como violência contra a mulher, no Brasil e no mundo, é sintoma de uma masculinidade adoecida e, muitas vezes, orgulhosa demais para procurar ajuda, que se vinga da mulher que passou à dianteira.
As mulheres, então, falam em conscientizar, educar, reclamar direitos, fazer passeatas pedindo isso ou aquilo, sem se dar conta de que ninguém tem obrigação de ajudar quem não busca ajuda e de que é ingenuidade acreditar na renúncia de privilégios apenas pela conscientização. As mulheres devem exercer o poder que já têm.
Essa estrutura patriarcal depende da mulher também, e cada uma pode encontrar seu próprio modo de resistir, não preenchendo as expectativas que lhe são impostas.
A bruxaria, então, como já mencionou Silvia Federici em seu magnífico livro Calibã e a Bruxa, traz uma estrutura filosófica, religiosa e de estilo de vida que abraça o universo feminino em sua totalidade. Ainda traz novas formas de lutar usando o invisível, honrando seus ciclos, suas idades, integrando a mulher, estimulando a sororidade e criando uma sociedade e civilização mais orgânica, em comunhão com a Natureza, o Divino e a ancestralidade.