
Por Marivia Sampaio
Seis horas da manhã de segunda-feira. Olhando a população ali na estação de metrô, posso ver que não há espaço, nem para respirar. Chega o trem e as pessoas disputam a possibilidade de passar pela porta. Não é conseguir um lugar, é passar para dentro do vagão. Jamais encontraria um espaço vazio. As cenas são conhecidas de todos. Um que não consegue colocar o pé no chão, alguém lendo um livro, de pé, todo esmagado, a senhora com sua sacola que não consegue lugar e quem está sentado ignora, os que vão descer na última estação e permanecem firmes nas portas, os meninos e meninas com fones de ouvido, totalmente ausentes dali e assim, muitos personagens. Observando essa cena cotidiana, fico a refletir sobre aquelas pessoas. Penso que quase cem por cento delas está a caminho do trabalho. Talvez, poucas tenham um destino diferente. Suas malas e mochilas carregam parte de suas vidas, já que vão ficar fora de casa por muitas horas. Minha imaginação me levou às esculturas de Bruno Catalano. Talvez porque representam personagens em trânsito, carregando suas histórias. As figuras são representadas faltando pedaços. Esses vazios são expostos. O que seriam aquelas partes que faltam? De onde viriam e para onde irão? Vêm de outros países, de outros estados? O que os levou a partirem? E aquelas pessoas espremidas no metrô? Sabem seus destinos? A elas também faltam partes? O que seriam esses vazios? Os passageiros são humanos em trânsito. As esculturas representam humanos. Acredito que outra característica os aproxima, embora, não seja explicitamente. Arrisco a dizer que as personagens viajantes do metrô escondem seus vazios nos corpos esmagados. Há ainda algo que possuem em comum. São pessoas em trânsito, que saem de seus lugares e se lançam no mundo, próximo ou distante, conhecido ou inóspito. São migrantes.
