a nadadora

Não tem como saber quem são as pessoas e de nada adianta prestar muita atenção nos detalhes físicos, apreendê-los e achar que se tem um personagem pronto. Mal sabem eles que o psicológico de cada um costuma ser aleatório, assim como a morte.

E lá estava ela, deitada naquele caixão, bem vestida, cheia de colares e pulseiras caros. Naquela altura, já devia estar bem longe dali, só o corpo frio protagonizava uma última cena.

Eu até a conheci, do bairro, dos passeios com minha cachorra. E me espantei ao vê-la nessa situação. Outro dia mesmo, era uma senhora robusta apoiada em bengala e acompanhada pela mocinha.

Antes, no entanto, devo dizer que criei um hábito meio antiético, enquanto faço a caminhada com a cadela que em sua ronda pelas calçadas, cheira tudo. É, me acostumei a ouvir conversas alheias enquanto Chica executa o seu ato primitivo. Não deixa de ser o meu ato primitivo.

Essa senhora, então, dizia à sua acompanhante: “enquanto você viaja, vou aproveitar para  fazer o meu…”

Perdi a palavra mais importante da conversa. Tive de diminuir o passo, ficar colada nas duas.

E a conversa continuou: “sim, o meu testamento. Mas não vou levar ainda para o cartório. Só vou colocar tudo ali, tudo o que quero deixar para você, meus livros… que você pode doar”.

A acompanhante pensou um instante, antes de responder: “eu vou ficar com alguns”.

E a senhora: “claro, pode ficar. Eu vou também deixar tudo anotado, numero de conta bancária, senhas, telefones, tudo mesmo”.

Eu já estava disfarçando mesmo, de tão perto que cheguei para ouvir:

“Assim, quando eu ficar velha, você já vai saber o que fazer.”

E olhou pra mim e pra Chica e disse:

Velha eu já sou, né?