Penélope JC

Era verão naquele fim de tarde quando o sol se foi o céu enegreceu e a água jorrou torrencialmente. As ruas começando a alagar formando verdadeiros riachos me forçaram a entrar naquele shopping tomada pela ilusão de estar segura. O que fazer? Flanar, pensei. Um tempo de nada fazer, luxo de poder desperdiça-lo. Desperdiçar? Era talvez tudo que inconscientemente eu buscava para decidir sobre um mimo, porque não se tratava de um mimo qualquer. Era um mimo para alguém que me ofereceu delicadezas daquelas que de tão singelas foram profundas deixaram marcas na vida, na visão de mundo, no corpo e n’alma.

Ela me deu a melhor amiga de uma vida inteira, com ela um amigo quase irmão até há pouco tempo, com eles a experiência de uma emoção incomum o primeiro choro de alegria incontida e o primeiro e inesquecível porre: nasceu a primeira sobrinha-filha cuja noite comemorativa terminou com o armário rodopiando no teto do quarto!

Ela me deu a sensação de presença importante quando me pedia opinião sobre algo prosaico, ou nos brindava com as limonadas mais doces naquelas tórridas tardes do verão tropical da noroeste ou dedilhava músicas ao piano e assim aprendi que além das músicas populares ou sertanejas existiam as clássicas e ouvi pela primeira vez nomes estranhos Chopin, Schubert, entre os outros, que me ajudaram a fazer bonito quando o colunista do jornal da cidade entrevistou a debutante a fim de saber suas preferências e eu citei o nome mais complicado que ouvira: Tchaikovsky, de quem nada sabia!

Poderia citar mais e mais detalhes da experiência de conviver com uma mulher pulsante, de espirito irrequieto, curioso, amoroso e marcadamente dona de uma alegria inesgotável, como a sua fé. Mas mulher de “otoridade” como dizia o seu Zé da fazenda.

Ora, qual seria então um mimo que expressasse tudo isso nessa data do tempo recorde do seu CENTENÁRIO pensava eu tomando um café naquela mesinha redonda. Foi quando livre de pensamentos circulares deitei os olhos naquela caixinha-livro com traços de um tempo de outrora que somadas àquelas latinhas tão engraçadas com seus azuis tão femininos; atração imediata de segundo grau. Bingo! No afã da preparação da embalagem com a jovenzinha da loja que se encantou com a estória dos cem anos vibramos juntas a cada detalhe que íamos inventando daqui e dali.                                                                                                                                      Enfim a chuva passara eu desci as rolantes entrei no carro e …o tempo parou!

Dentro das caixinhas tinham secretas guloseimas diversas, exclusivas no gosto, no chocolate estrangeiro, no formato artístico, nas cores invulgares, nos dizeres poéticos, nos traços de tempos passados, atualizados. O prazer do original: guloseima incomum.

Escolha por acaso? O mimo pra você com quem tive o privilégio de ter a primeira experiência de nutrição quando cheguei na existência, a número 1, o primeiro trago: farto, generoso, amoroso. Sobrevivência com prazer!

Minha MÃE DE LEITE a quem retribuo simbolicamente o mais além que veio com o alimento.  Penso que foi marca. Marca de corpo ressoa. Algumas não viram palavras elas falham na música! O que me evoca Ferreira Gullar definindo a voz de Nara Leão: “sua voz quando ela canta me lembra um pássaro mas não um pássaro cantando lembra um pássaro voando!