{"id":257,"date":"2017-03-25T16:05:52","date_gmt":"2017-03-25T19:05:52","guid":{"rendered":"https:\/\/webbypropaganda.com.br\/site-renataoliva\/?p=257"},"modified":"2017-03-25T16:05:52","modified_gmt":"2017-03-25T19:05:52","slug":"vai-um-avo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quasepedagogico.com.br\/site2\/vai-um-avo\/","title":{"rendered":"Vai um av\u00f4?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00daltima segunda-feira de agosto. Um dia ap\u00f3s o encerramento das Olimp\u00edadas de Atenas. Os jornais falam das medalhas, do nosso maratonista Vanderlei que liderava a prova e foi agredido por um maluco irland\u00eas. Mortes de mais moradores de rua que parece viraram coisa comum tamb\u00e9m no interior de S\u00e3o Paulo. Mega protesto em Nova York contra Bush\u2026 Uma pequena not\u00edcia chama minha aten\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Professor aposentado quer ser adotado como av\u00f4. \u201cUm professor de 80 anos que vive sozinho pr\u00f3ximo da cidade de Tivoli, na It\u00e1lia, est\u00e1 tentando ser adotado como av\u00f4. Giorgio Angelozzi, vi\u00favo h\u00e1 12 anos, est\u00e1 disposto inclusive a pagar 500 euros por m\u00eas para a fam\u00edlia que o adotar. Ele colocou um an\u00fancio em jornais locais e disse j\u00e1 ter recebido v\u00e1rias liga\u00e7\u00f5es. Morador da pequena cidade de San Polo dei Cavalieri, Angelozzi disse que j\u00e1 teve \u201csolid\u00e3o suficiente\u201d e pode ser \u201csocialmente \u00fatil\u201d como av\u00f4 para uma fam\u00edlia que n\u00e3o tenha nenhum.\u201d (O Estado de S\u00e3o Paulo 30\/8\/04) Tento imaginar quanto daria para ter meus av\u00f3s de volta! Quanto dariam meus filhos para t\u00ea-los de volta? Coisas que s\u00f3 damos valor quando perdemos. Quanto vale sentar numa velha escrivaninha, abrir todas as gavetas, ajudar a apontar os l\u00e1pis grafite, cortar peda\u00e7os de envelopes que v\u00e3o ser usados para fazer contas do emp\u00f3rio, do a\u00e7ougue, do padeiro que passa duas vezes por dia? Sentada diante do meu moderno computador lembro do barulho do teclado da velha Remington do vov\u00f4, as teclas pulando e batendo na fita preta e vermelha. Ficou a mania de bater no teclado com for\u00e7a. Um Chevrolet 51, preto reluzente, estacionado na garagem. Banco de couro, pneu faixa branca. Eram bens duradouros, as coisas tinham outro valor. O tempo passava devagar. Os almo\u00e7os e jantares eram rituais sem pressa. Uma sopa sem ser de pacote. Uma couve rasgada, uma compota de goiaba, uma laranjada bem doce. O caf\u00e9 mo\u00eddo em casa, o cachorro e os gatos n\u00e3o comiam ra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu av\u00f4 guardava todos os pap\u00e9is de embrulhos (ainda existem embrulhos?), todos os barbantes num rolo gigantesco. Como o italiano Angelozzi, vov\u00f4 passou por \u00e9pocas dif\u00edceis: lutou na revolu\u00e7\u00e3o de 24, depois na de 32, odiava Get\u00falio que passei a odiar sem saber muito bem por que. Nasci um m\u00eas depois daquele agosto de 54. Dizia que n\u00e3o se pode deixar comida no prato. Nem roer as unhas, nem falar alto com as pessoas. Com ele aprendi a falar bom dia, boa tarde, por favor e muito obrigado. A olhar cada p\u00f4r de sol como se fosse \u00fanico. A dar valor para os estudos para ser algu\u00e9m na vida. Ele n\u00e3o teve essa chance, entregava doces que a m\u00e3e vi\u00fava fazia, depois foi trabalhar como cont\u00ednuo (eu n\u00e3o sabia o que era) numa corretora de caf\u00e9. Trabalhou duro, deixou filhos e netos. Morreu dormindo na rede da fazenda. Teria mais de cem anos\u2026 Meu pai tamb\u00e9m foi um av\u00f4 inesquec\u00edvel. Fazia mais bagun\u00e7a que os netos, contava hist\u00f3rias, criava personagens, inventava charadas, ca\u00e7a ao tesouro, comprava balas, bombons, chocolates, tudo o que as m\u00e3es proibiam. Adivinhava desejos de cada um. N\u00e3o passa uma semana sem que um dos netos se lembre de alguma besteira que o av\u00f4 estaria aprontando nesses tempos de internet. Quantos e-mails engra\u00e7ados, quantos textos maravilhosos. Velho Giorgio, que voc\u00ea arranje muitos filhos e netos adotivos. N\u00e3o pense nos euros. O afeto de um av\u00f4 n\u00e3o tem pre\u00e7o . S\u00e3o Paulo, 2004<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Texto publicado na revista \u201cContra Regra\u201d do Teatro de T\u00e1buas em 2004<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neta Mello nasceu em S\u00e3o Paulo em 1954 como Maria Antonieta Pereira de Almeida. Bacharel, licenciada e p\u00f3s-graduada em Hist\u00f3ria pela PUC-SP, trabalhou como professora de Hist\u00f3ria e Atualidades. Escritora, tem cinco publicados: \u201cCr\u00f4nicas Mem\u00f3rias\u201d, \u201cPaulic\u00e9ia Ignorada\u201d, \u201cSem Remetente\u201d que recebeu o 2o lugar no concurso da Uni\u00e3o Brasileira de Escritores RJ em 2010, \u201cO sil\u00eancio faz parte da resist\u00eancia\u201d e \u201cEu n\u00e3o sabia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por Neta Mello &#8211; www.blogdaneta.blogspot.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00daltima segunda-feira de agosto. Um dia ap\u00f3s o encerramento das Olimp\u00edadas de Atenas. 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