Fui convidada por uma amiga a ir a uma tarde dançante. Logo rebati a ideia, apavorada com a novidade e com o fato de eu ser péssima no quesito dança. Com a explicação de que era só para mulheres, com personal dancers, fui aceitando a ideia   aos poucos e decidi ir à “Nossa Tarde Dançante”, num salão em Moema.

Chegando lá logo vi uma fila de cavalheiros vestidos com calça preta, camisa branca com gravata borboleta e suspensórios (acredite se quiser) e sapato preto, enfileirados com as damas assíduas frequentadoras dessas tardes de segundas-feiras, treinando uma nova coreografia. Havia todo tipo de damas: as solitárias com leque, as incansáveis, as artistas.  Sentamos à uma das mesas colocadas ao redor da pista de dança. Nossas cadeiras eram enfeitadas com laços coloridos de acordo com a frequência de danças que tínhamos escolhido, meu pacote era dançar uma música e descansar duas. Foi bom, porque não sou nenhuma pé de valsa. 

Éramos tiradas para dançar pelos cavalheiros que nos conduziam até a pista de dança pelo braço, super gentis. Começa a música e meu debut foi com “New York, New York”.  Sendo todos eles ótimos dançarinos vi que ia ser fácil. Fácil? Não na acepção correta da palavra! Eles sabem conduzir gente perna de pau, são exímios dançarinos, ótimos professores e a gente vai só acompanhando com alguns desequilíbrios e pisões nos pés deles, é claro. Quase morri de vergonha dançando um forró bate-coxa (Deus meu!), pisando no pé do moço que, incólume, fingiu não perceber. Coisa de profissional. Espero não ter estragado seu sapato bicolor de verniz, bico fino. 

A gente vai conversando durante a música e eu estava interessada no tipo de vida que têm esses profissionais porque, para falar a verdade, eu tinha um pouco de preconceito com esse tipo de profissão e mesmo ficado um pouco constrangida de ir dançar em baile de mulheres da terceira idade. As histórias são basicamente as mesmas: começaram a dançar cedo e alguns até fizeram balé clássico e contemporâneo e agora trabalham com dança, e notei que sempre com prazer. Dão aula em grupos ou particular para gente que gosta de todo tipo de dança de zumba e até tango para os milongueiros.  Eu tinha imaginado que eles deveriam ser motoristas de Uber porque dançar vários períodos do dia esgota qualquer um, mas eles complementam sua estrutura física fazendo musculação e alongamento, se não, não dá! Também cometi uma gafe horrorosa: perguntei, candidamente, se ele trabalhava “à noite”. A resposta foi curta e grossa: “Eu danço à noite”.  Depois que eu percebi que a minha pergunta tinha sido meio capciosa, pois ele entendeu “Você é garoto de programa?” Terminada a dança tentei esclarecer o teor da minha pergunta, sem segundas intenções. Sensível o moço, não?

A gente dança cada vez com um personal, o que é bom para percebermos os estilos pessoais variados, indo do tipo formal, solto e até um deles, romântico, cantarolava baixinho as letras das músicas, só ficando quieto nos versos “quero te beijar.” ou “…fazer amor, tô sem juízo…”. É demais, tudo muito respeitoso. Eles nos conduzem, aproximando ou nos afastando, informação sensorial, explicou um deles. Fui me soltando até que acabei me largando! Aí foi uma risada só!  É um prazer estar com o outro, mesmo desconhecido, com a saia rodopiando em ondas!

Lá pelas tantas a música tocada foi o Parabéns, festejando os aniversariantes do mês, com bolo e velinhas. Muito divertido e gostoso. Depois de algumas danças o baile foi encerrado. Minha amiga e eu, exaustas, mas ainda rindo sem razão, nos despedimos dessa tarde agradabilíssima.

Vou voltar lá, para mais   um dia de” desenvolvimento físico-cognitivo” como pontuou um dos parceiros. Pode?