Aqui estou eu, sentada, no terraço da fazenda. Como diria meu pai, não da fazenda, da sede da fazenda. Mas Véio , todo mundo entende ! De onde estou,  tempos atrás, a gente via um morro, com uma parte plantada, uma parte coberta de mato. O tempo vai passando e a vista, como nós, vai mudando e, dependendo do caso, melhorando ou piorando. No meu caso, o tempo e eu  fomos  seguindo na mesma toada. Ainda dá para ouvir o  barulho da água do lavador. É como se estivesse  sempre chovendo. A este som se somou mais um, o dos caminhões imensos que passam na rodovia à nossa frente. Odiamos quando abriram   esta estrada. Agora amamos, é uma mão na roda, facilitou horrores a entrada para a fazenda. Quando colocaram as torres de alta tensão,  também foi outra comoção.

Dá para ver o bando de andorinhas, que antes pousava na fiação de luz do terreiro, agora se acomoda nas mangueiras, essas sim, velhas, que não dão mais a mesma quantidade de mangas, que  a gente se lambuzava. As mangas de hoje são  bem maiores e não tem fiapos. Isso é muito  bom!

Um beija- flor veio bicar as flores da primavera. Esses passarinhos  são meio desorientados, às vezes entram em casa e ficam se debatendo na janela.

De um lado tem um gramado,  que quando é cortado, fica com um cheiro delicioso. Embaixo do flamboyant,  tinha  um troleizinho velho, pintado de amarelo e uma fileira de jabuticabeiras  literalmente centenárias. É curioso como são regadas. Existe um pequeno rego feito de tijolos. A cada dia ,um tijolo é retirado, perto do pé de uma árvore. Assim, cada  pé  é  regado   muitas vezes. E não é que funciona? Chupávamos jabuticabas 3 vezes por ano. Até eu ,uma vez,  fiz geleia, que ficou ótima. Acho que foi a única vez na vida que eu usei uma panela num fogão aceso.

A Maria me traz um copo de limonada de limão rosa , com gelo até a boca!
Daqui também, dá  para ver a tulha lá embaixo. É lá dentro que funcionava a máquina de beneficiar café,   enorme, linda, Eu achava que era  made in England, mas vendo a plaquinha, o que dá para ver, é que a máquina foi construída em Limeira. Durante o processo, os grãos de café  passavam da peneira para o duto e caíam numas janelinhas e pulavam feito pipoca, como naquelas máquinas que tem nos  cinemas. Em cada janelinha ,um tipo de grão. As crianças da fazenda  adoravam brincar na palha que caía de uma chaminé. Faz tempo!  Hoje essas crianças tem mais de 40 anos! Meu Deus!

Agora já  está na hora de entrar. Os borrachudos ficam ouriçadíssimos no final  da tarde. Tenho sorte, quase não sou picada. Meu sangue deve ser horrível! Mesmo assim entro e fecho a porta . Está na hora da novela.

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